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Dez
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Inventar o próprio destino

Entre nós, no Brasil, o futebol sempre nos serviu como uma metáfora da vida – o
justo e o injusto, o drible, o imponderável, a paixão, a dor. Nelson Rodrigues,
como todos sabem, expressou muito os encontros do futebol com a vida e muitas
das suas histórias parecem escritas entre quatro linhas.

Eu queria acrescentar um capítulo a esse encontro entre futebol e vida. A
história que o Fluminense escreveu nos últimos três meses no Campeonato
Brasileiros – desde o dia em que os estatísticos, os jornalistas esportivos e
os torcedores dos outros times decretaram que ele tinha apenas 2% de chances de
não ser rebaixado para a Série B – parece-me ideal para refletir sobre algo que
acompanha o ser humano: o destino.

Muitos filósofos fazem a distinção entre “desejo” e “vontade”.  O desejo é algo
que compartilhamos com vários outros animais, como gatos, lobos e baleias:
desejamos comida, abrigo, parceiros sexuais e nossos comportamentos são
dirigidos à satisfação desses desejos. Porém, algo que é peculiar às pessoas –
que nos distingue do resto da natureza – é o fato de que podemos refletir sobre
nossos desejos, escolhê-los, ponderar sobre eles. Alguém pode “querer não
desejar algo”, como é o caso de uma pessoa que quer deixar de fumar ou fazer
apostas (como no caso clássico de O Jogador de Dostoyevsky). A vontade é o modo
como escolhemos o que fazer e o que somos. É claro que essa escolha não é como
um fenômeno natural, pois sempre é possível que não se realize. Porém, somos
pessoas – somos seres racionais, humanos, temos alma – sempre que vivemos à luz
da nossa vontade. O humano é uma luta contra o destino.

O time do Fluminense desafiou o destino e fez uma campanha apaixonante nos
últimos meses. Cuca conseguiu criar um time, foi atento ao elenco que dispunha,
barrou alguns jogadores inquestionados pela diretoria e torcida, promoveu
jogadores improváveis, organizou um esquema consistente. Alguns jogadores
trouxeram para si a responsabilidade e, com isso, conseguiram conquistar a
torcida. O time ficou, ao mesmo tempo denso, volumoso, voluntarioso e
agressivo.

Até ontem, 6 de dezembro, até os 49 minutos do segundo tempo em Curitiba, não
havia garantias, apenas a vontade – não apenas o desejo de vencer, mas o desejo
de querer vencer, o desejo de ter forças. Foi apenas um ponto… um único
pontinho. E o Fluminense desafiou provável e inventou o próprio destino.

Para mim, essa é a mais perfeita metáfora, a vida.

Waldomiro


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